A palavra cuidado nos direciona a uma amplitude bem maior do que podemos imaginar. Cuidar se relaciona com a capacidade de se doar a outra pessoa. Está relacionada com uma atitude de amor e vínculo de compromisso. Também há outro lado: sermos cuidados. Nos entregarmos ao cuidado por algum momento pode parecer um desafio, pois é mais comum cuidarmos de alguém do que aceitarmos sermos cuidados.
A igreja pode e deve ser um espaço para cuidados; um espaço terapêutico de acolhimento, de cura, promotor da saúde e da felicidade. Um espaço para compreensão de que a graça de Deus também se manifesta em situações difíceis para algumas pessoas, talvez situações em que não vislumbrem soluções; por este motivo, o exercício da fé aliado a ações em comunidade é importante para a construção de caminhos saudáveis. Para Howard Clinebell o cuidado pastoral está além do cuidado do/a pastor/a ao rebanho. Pelo contrário, a poimênica (do verbo poimen, do grego) é o ministério amplo e inclusivo de cura e crescimento mútuos dentro de uma congregação e da sua comunidade, durante todo o ciclo da vida. Desta forma, o Aconselhamento Pastoral - que constitui uma dimensão da poimênica - é a utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidarem com os seus problemas e crises de uma forma conducente. Portanto, o cuidado é mútuo. Leigos preparados para a efetivação do Aconselhamento Pastoral podem realizar a dinâmica do cuidado na comunidade, apoiando desta forma o/a pastor/a que tem a responsabilidade de cuidar do rebanho que Deus tem concedido. Desta forma, todos aqueles/as que se sentem vocacionados por Deus para o ministério amplo do cuidado podem contribuir para que todos os membros na comunidade (inclui-se aqui também clérigos) se sintam amparados, não como ovelhas sem cuidados (cf Mateus 9. 36).
Cuidado é atitude. É compaixão
A palavra cuidado possui inúmeras definições. Seria muito difícil delimitar apenas um significado para mesma. Segundo Leonardo Boff “cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”. No entender de Boff existe uma relação entre cuidado e compaixão, compreendendo o ser humano como um ser de cuidado e de compaixão. Assim, cuidar pressupõe que há alguém que cuida e ao mesmo tempo torna-se alvo deste cuidado. É importante que ministros/as (e todo o rebanho) do reino de Deus tenham a compreensão da necessidade do exercício de cuidar de si mesmos para cuidar bem dos outros. Desta forma, compreendemos a importância de todos receberem cuidados (quem cuida também necessita de cuidados), para que assim possam cuidar bem do rebanho que é confiado por Deus, como nos diz o autor do livro de Atos: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou...” (Atos 20:28a). Desta forma, adentramos na Jornada do Cuidado.
Cuidado com olhar atento
Para uma efetiva caminhada na Jornada do Cuidado temos que apreender a reconhecer os sinais que nosso corpo ou mente nos indicam a nós mesmos/as ou aqueles/aquelas que estamos a cuidar.
De acordo com Ronaldo Sather-Rosa, cuidar implica “Relacionamentos fundamentados na fidelidade e motivação para servir de elo que facilite o livre caminhar de pessoas, famílias grupos e comunidades pelo deserto do abandono a si mesmo, pelas ameaças à vida, com determinação, esperança e cercados de amizade.”
Para o autor, algumas dimensões (que aqui denomino como um olhar atento) são primordiais no processo do cuidado: admitir que não conhecemos toda a verdade e que não conseguimos expressar tudo o que sabemos ou conhecemos; necessitamos aprender a conviver com as diferenças ideológicas ou outras que podemos encontrar. Precisamos de ser fieis às nossas convicções e termos clareza, como já mencionado anteriormente, aos nossos limites, pois todos nós os temos.
Até que ponto, podemos oferecer ajuda? Algumas vezes a ajuda está em indicar profissionais competentes para dar prosseguimento nas necessidades de quem nos procura. Reconhecer as outras áreas da ciência, como por exemplo a Medicina e a Psicologia, que contribuem favorávelmente no processo do cuidado. É importante mencionar esta questão pois algumas pessoas podem ser resistentes a esta ajuda, e nós, cuidadores, podemos contribuir para que esta possibilidade se concretize.
Cuidado holístico
Conforme Albert Friesen, o Evangelho apresenta Jesus Cristo através de um ministério de amplitude integral. Um ministério manifestado pelo ensino, cura e consolo. Embora Jesus exercesse um ministério integral, a Igreja em várias épocas não cuidou de realizar a mesma tarefa. Sendo assim, Friesen demonstra que “o corpo foi delegado aos cuidados da medicina. A alma (a psique) foi delegada a psiquiatria e a psicologia. E a igreja ocupou-se unicamente do cuidado da dimensão espiritual, com ênfase na salvação, santificação e evangelização”. Compreendemos que, diferentemente do ministério de Jesus, a igreja passou a dar muita importância apenas à espiritualidade e acabou esquecendo-se do físico e do emocional. Neste sentido Friesen afirma que a igreja precisa voltar à visão integral do ser humano, para que de facto possa ajudá-lo. Temos o exemplo de Jesus que, ao encontrar-se com as pessoas, realizava transformações por completo; isso é, a integralidade do ser humano era restaurada por Ele.
Cuidado e ética
A ética é fundamental no acompanhamento das pessoas. Para Friesen, o sigilo é de suma importância para que se construa uma relação de confiança. Algumas vezes o processo de cuidado pode ser público, outras vezes, por solicitação da pessoa que estamos a acompanhar, privado. O desejo de não se expor à comunidade, como em casos de atendimento pastoral (nota-se aqui a possibilidade da poimênica, já abordado anteriormente). Apresento algumas pontuações práticas destacadas por Friesen. Para o aconselhando (aqui denomino quem estamos a cuidar) o seu problema é singular, único e inédito. A sua dificuldade causa-lhe preocupações em torno da sua auto-imagem, do seu self:
• a informação a respeito do seu sofrimento pode ameaçar o seu bem estar, real ou imaginariamente;
• por sentir ou imaginar estes perigos e ameaças, ele procura alguém em quem possa confiar e escolheu uma pessoa bem específica: VOCÊ;
• ele quer encontrar compreensão, simpatia e seriedade - ele procura quem não jogue com as informações a respeito dos seus problemas como se isto fosse de pouca importância, ou, muito pior, nutrindo a curiosidade de outras pessoas;
• a sensação é de que as informações possam destruir para sempre sua auto imagem, bem como seu próprio EU.
E por fim...
Certamente, falar de cuidado é um assunto amplo, impossível de ser apresentado na íntegra aqui nestas poucas linhas. No entanto, ressalto a importância de cuidarmos bem de nós para cuidarmos dos outros.
Queira Deus que alguns dos caminhos apresentados sejam práticas efetivas nasnossas comunidades.
Pra. Patrícia Marques